O Brasil está repleto de verdades históricas que se misturam com mitos e o imaginário popular, criando uma simbiose incrível entre personagens, paisagens e feitos inacreditáveis e dentre tantas histórias que já li, ouvi e pesquisei, quiçá uma das que mais me causam inquietação é o caso do lendário Caminho de Peabiru – uma grande trilha pré-colombiana que ligava no sentido Leste-Oeste os Oceanos Atlântico e Pacífico, ou seja: Fazia o contato dos silvícolas da costa Brasileira com o povo que habitava a região do maior império que se viu no território sul-americano: os Incas.
Lógico, há várias histórias que se cruzam e poderíamos ficar aqui por páginas e páginas divagando sobre os eventos históricos que se permeiam. Mas se há uma personagem magnifica da história do “Brasil Espanhol” que quase ninguém sabe e que o povo deveria conhecer é um navegador que carregava o nome de Alvar Nuñes Cabeza de Vaca.
Antes, vamos à uma correção histórica: todos os caminhos indígenas pré-colombianos e pré-cabralinos eram chamados de Peabiru; do tupi – pe:”caminho”; abiru:”gramado amassado”. Portanto, o que chamamos na atualidade de rodovia, estrada ou “BR”, era chamado de Peabiru pelos nossos habitantes antes do “Descobrimento”. Os peabirus se estendiam por uma vasta região através de ramais, atalhos e entroncamentos. Neles, certamente estão inclusos os hoje conhecidos Caminhos Coloniais do Arraial, Graciosa, Itupava, Conceição e Ambrósios.
Alvar Nuñes Cabeza de Vaca

Ocorre que Cabeza de Vaca, após fazer uma viagem incrível com mais de 8.000 km a pé atravessando da Flórida até a Cidade do México sendo, provavelmente, o primeiro Europeu a ver o Grand Canyon e uma variedade de animais endêmicos da América como o Bisão e o Puma, acabou aportando no litoral Catarinense em 1540.
Nessa expedição, a ideia de Nuñes Cabeza de Vaca era tomar posse como governador geral da Província do Prata, onde sua “capital” estava assentada na atual cidade de Buenos Aires. Porém o europeu foi avisado que a cidade de Buenos Aires tinha sido tomada e saqueada, portanto, certamente seria morto se tentasse qualquer ato nas margens do Prata. Na mesma ocasião, foi informado que havia um povoamento erigido mais ao norte três anos antes, portanto, se houvesse uma capital a ser designada, certamente seria nesse novo ajuntamento. O novo assentamento foi batizado de “A Muito Nobre e Leal Cidade de Nossa Senhora Santa Maria da Assunção”, hoje conhecida apenas por “Asunción/Assunção”, a capital do Paraguai.
Caminho de São Tomé
Através dos índios, provavelmente Carijós e Guaranis M’byás, Alvar Cabeza de Vaca ouviu histórias de um grande e importante caminho que ligava os povos indígenas brasileiros com os povos andinos.
Tratava-se de um caminho sagrado e místico para os índios; um legado deixado por um ser divino, alto, branco e com longas barbas – totalmente diferente do biótipo indígena: baixo, bronzeado e sem pelos – Diziam-lhe que este ente há muito passou pela rota então utilizada, após seus pés tocarem o solo, cresceu uma gramínea suave e como pequenas sementes que se grudavam aos pés de quem por ali transitava.
A divindade era conhecida como Paai Zumé – Obviamente, não demorou para que se cristianizasse a história, criando o mito do Paai Sumé, ou seja: o discípulo Tomé, após ter duvidado da ressureição de Jesus teria sido enviado aos confins da Terra para pregar. Logicamente que, para a época, o fim do mundo só poderia ter sido o Brasil. O caminho foi rebatizado pelos Jesuítas de Caminho de São Tomé.
Montanha de Prata
Ainda, ouviu que esse caminho chegava à uma montanha enorme de prata e que, antes, passava justamente por Asunción. Ao continuar, o caminho levaria a povos onde as cidades eram de ouro.
Não demorou para que os olhos europeus brilhassem com tamanha boa-nova.
Prontamente, Alvar Nuñes Cabeza de Vaca juntou cerca de 3000 índios, 250 homens europeus e 26 cavalos e iniciou sua jornada através do rude e agreste interior brasileiro em 02 de Novembro de 1541.
Há dúvidas sobre a rota exata de Cabeza de Vaca, mas a linha mais aceita é que sua expedição desceu por São Francisco do Sul até a foz do Rio Itapocu – sim, esse mesmo que cruzamos pela BR-101 ao chegar em Barra Velha/SC em direção à Bal. Camboriú e Florianópolis – subiu o rio até atingir os lindíssimos campos da Serra Geral. A partir daqui fica meio obscuro seu traçado, mas ao meu ver, ele deveria ter subido até os campos de Palmas e Guarapuava através do Caminho dos Ambrósios e seguido o vale do Rio Iguaçu.
Esse incrível personagem foi, pasmem, através dessa expedição, o primeiro europeu a ver as Cataratas do Iguaçu; sendo atribuindo a ele o descobrimento desse lugar de tirar o fôlego em 31 de Janeiro de 1542.
A expedição continuou o intento através do que hoje conhecemos por Paraguai até chegar em Assunção.
As “lendas” e histórias se comprovaram. Até mesmo a inimaginável montanha de prata era real, como bem sabemos atualmente das minas de Potosí. Aliás, essa relação é tão forte que as toponímias estão fortemente ligadas com esse metal precioso: Rio da Prata, Província do Prata e hoje a Argentina: do latim – “Argentum”:Prata.
Referencias Arquiológicas
O ramal principal do Caminho do Peabiru provavelmente vinha com seu traçado a partir de São Vicente ou Cananéia, descendo através do Campos Gerais passando provavelmente pelos atuais municípios de Castro, Tibagi, Pitanga, Campina da Lagoa, Cascavel e seguia em direção a Assunção; ora cortando ora seguindo o curso de importantes rios da Bacia do Rio Paraná como o Tibagi, Ivaí e Piquiri, ligando-se com outros caminhos andinos. Inclusive, a UFPR sob a batuta do arqueólogo e catedrático Igor Chmyz, vem desenvolvendo estudos sobre um trecho que acredita-se ser um remanescente do Caminho do Peabiru em Campina da Lagoa.
Há muitas referências e artefatos arqueológicos como inscrições, peças andinas e marcos líticos espalhados através de uma intrincada rede de caminhos nas regiões como o litoral paulista, o Monte Crista, Serra Geral e Campos Gerais, bem como nas savanas paranenhas paraguaias.
Lembro ainda que, até a expulsão dos Jesuítas do Brasil em 1759, pouco do Brasil Português era visto por esses lados. Nessa região a língua ouvida era o castelhano e o Guarani, bem como tradições marcadamente hispano-indígenas. Reforçando todos esses elos estão as, hoje ruínas, grandes Reduções das Missões Jesuíticas de Villa de Ontiveros (1554), em território paraguaio; Ciudad Real del Guairá (1557), atual cidade de Guaíra e Terra Roxa; e Villa Rica del Spiritu Santo (1570), atual cidade de Fênix. Naturalmente essas reduções foram elevadas próximas às rodovias da época, facilitando a locomoção, comércio e comunicação entre os territórios. Traçando uma linha lógica entre a geografia e relevo, dados, documentos históricos e artefatos específicos desse período e cultura, facilmente temos o traçado do Caminho do Peabiru cortando o estado do Paraná sentido aos Andes.
Eis essa grande rede viária que povoa o imaginário, intriga pesquisadores à séculos e que desperta em nós a ancestralidade de caminhar e desbravar.
Posteriormente, os tropeiros também se utilizaram dessa incrível malha viária. Mas essa já é outra história…
História fascinante, que certamente se sobrepõe a muitas outras que buscam semelhança. Paranaenses e Catarinenses, brasileiros, argentinos, paraguaios e peruanos, bem que poderiam estabelecer estudos conjuntos reativando esse Peabiru, pra que o desenvolvimento turístico aqui pudesse chegar. Sem, menosprezar, mas o que é o caminho de Santiago de Compostela, comparado ao nosso Peabiru e suas centenas de riquíssimas histórias?