Costumo dizer aos meus clientes: “Saia do virtual e venha para o natural.”
Essa frase não é apenas um convite para sair de casa. É um chamado para resgatar algo que muitos de nós deixamos para trás sem perceber: a nossa capacidade de brincar, imaginar e nos encantar.
Hoje, fala-se muito que as novas gerações correm o risco de acumular mais memórias virtuais do que experiências reais. Fotos, vídeos e stories se multiplicam, mas vivências profundas ficam escassas.
Precisamos cuidar para que nossas lembranças não sejam apenas registros digitais, e sim histórias sentidas no corpo, no coração e em todos os sentidos. Construa sua história com lembranças reais — cheiros, texturas, risadas, descobertas — e não apenas com arquivos armazenados na nuvem.
Poucos dias atrás, vivi uma experiência que confirmou, com força, tudo aquilo em que acredito.
Estava de férias no Canadá na casa do meu namorado Otto, em pleno inverno. Temperaturas médias de –20 °C, com extremos chegando a –36 °C. Para muitos, isso seria motivo suficiente para ficar dentro de casa. Para nós, foi exatamente o contrário.
Decidi dar espaço para a minha criança interior — e não estava sozinha. Tive um grande companheiro nessa jornada: o Otto. Juntos, nos permitimos brincar. E os adultos ao redor… só se admiravam.
Brincávamos de observar a formação dos flocos de neve, fazer sorvete a temperatura ambiente (do lado de fora da casa) e de ver bolhas de sabão congelarem no ar. Colocávamos água com corante alimentar dentro de bexigas e deixávamos do lado de fora de casa e, em pouco tempo, surgiam bolas de gelo coloridas. A imaginação foi crescendo: fizemos cachepôs de gelo, copos de gelo (sim, bebemos suco neles!) e até colocamos água dentro de uma luva para criar uma mão congelada.

Era simples. Era lúdico. Era natureza + criatividade.
Quando chegou perto da minha partida para o Brasil, resolvemos levar todas essas peças de gelo para o pátio da escola em frente à casa do Otto, em Winnipeg, Canadá. As crianças costumavam brincar ali no recreio, mesmo com neve. Espalhamos tudo com carinho, mas confesso: fiquei com receio. Será que alguém iria pegar? Será que a escola iria achar aquilo estranho e retirar?
No dia seguinte, era uma segunda-feira, para nossa surpresa não houve aula na escola.
E na terça-feira era o dia de euzinha ir embora. Quando saímos para ir para o aeroporto o recreio já havia acabado e no pátio já não havia mais nada. Pensamos: “Talvez a escola tenha retirado… talvez não tenham gostado.”
Alguns dias depois, veio a surpresa.
A diretora da escola — que conhecia a Marie, filha do Otto — perguntou se ele tinha passado pelo pátio. Confesso que meu coração gelou mais do que o inverno canadense. Pensei: lá vem bronca…
Mas não!
As crianças amaram. Brincaram tanto que depois esconderam tudo embaixo da neve, para que ninguém pegasse. Trataram aquelas peças de gelo como um verdadeiro tesouro.
E tem mais: como não houve aula na segunda-feira, porque a escola usou o dia para reunir professores e pais para ensinar os adultos a fazerem brincadeiras criativas com os filhos.
Eu fiquei emocionada. Em choque. E profundamente tocada.
Porque isso escancara uma realidade: tanto crianças quanto adultos estão perdendo a criatividade e a capacidade de se divertir. Estamos cada vez mais presos às telas, às distrações prontas, às experiências filtradas — e cada vez mais distantes do simples, do natural e do brincar livre.
Brincar não é perda de tempo. É investimento em saúde emocional, em conexão e em humanidade. Só para elencar e deixar essa afirmção mais concreta, estudos apontam que o contato com a natureza e as brincadeiras lúdicas na infância — e também na vida adulta — trazem benefícios enormes:
- – estimulam a criatividade e a imaginação
– fortalecem vínculos afetivos
– reduzem o estresse e a ansiedade
– desenvolvem autonomia, curiosidade e presença
– despertam o encantamento pelo mundo real
Deixe sua criança interior sempre viva, pois ela é a única que nunca morre. A adolescência passa, a maturidade chega… mas a infância permanece dentro de nós, esperando apenas permissão para existir.
Que a gente se permita mais vezes sair do virtual e voltar para o natural.
Afinal, a natureza continua ali — esperando apenas que a gente volte a brincar com ela!
Bora fazer isso participando de um roteiro comigo?






