
Acabo de voltar de uma prospecção para conhecer a Trilha do Ararapira inaugurado em dezembro de 2025 dentro do Parque Nacional do Superagui e verificar as mudanças que ocorreram nos ultimos tempos na geomorfologia da região. Eu acompanhei varias mudanças ao longo dos anos e para meu espanto elas ainda estão acontecendo de forma muito rápida!
Esse texto é para esclarecer e alertar sobre os vários impactos que estão acontecendo no coração do complexo estuarino Lagamar, entre São Paulo e Paraná. Como uma intervenção humana aparentemente simples está provocando mudanças profundas na paisagem e nos ecossistemas. A história envolve o Canal do Varadouro, o esporão arenoso de Ararapira e os impactos cada vez mais visíveis na saída do rio Ararapira para o mar.
Aqui compartilho o meu pensamento que devemos: Conhecer para respeitar. Borá lá?
O que é o Canal do Varadouro?
O Canal do Varadouro é um canal artificial de aproximadamente 6 km de extensão. Aberto inicialmente por moradores locais por volta de 1820 para facilitar o transporte de canoas entre Paranaguá (PR) e Cananéia (SP), ele foi oficializado e ampliado com obras na década de 1950. O canal corta o antigo istmo e conecta diretamente a Baía dos Pinheiros ao rio Ararapira, passando ao sul da antiga vila de Ararapira.
O que parecia apenas uma solução prática, que as cidades de Paranaguá e Cananéia precisavem, para encurtar caminhos e facilitar o escoamento de mercadorias como farinha de mandioca, arroz, feijão e mais tarde até erva mate. Infelizmente o Canal do Varadouro acabou alterando radicalmente o regime de marés e o fluxo hídrico de todo o estuário.
O Esporão de Ararapira: uma barreira natural em perigo
O esporão de Ararapira (também chamado de restinga ou esporão arenoso), que faz parte da Ilha do Cardoso (SP), é uma estreita faixa de areia que atua como barreira natural entre o Mar do Ararapira (estuário lagunar) e o oceano Atlântico. Uma das partes mais vulneráveis atualmente é o Estreito do Melão.
Antes da abertura do Canal do Varadouro, o sistema era mais protegido. Depois, as correntes de enchente e vazante ganharam força e novos caminhos, acelerando a erosão nas duas margens do esporão. Taxas de recuo de até 2 a 4 metros por ano foram registradas em alguns trechos, com erosão atuando por ambos os lados.
Em 2018, o enfraquecimento do esporão resultou na abertura da Barra da Baleia, uma nova desembocadura, deslocando a Comunidade da Baleia e isolando a Comunidade de Pontal do Leste, ambos faziam parte da Ilha do Cardoso.
Pude comprovue uma nova ruptura pode ocorrer nos próximos anos, o que isolaria parte da Ilha do Cardoso e criaria mais uma “nova ilha” no litoral de São Paulo. O Estreito do Melão, onde está acontecendo com uma erosão muito adiantada e só faltam dez metros para a abertura dessa nova abertura.
Impactos ambientais na saída do rio Ararapira para o mar
As alterações no fluxo hídrico provocaram um “novo dinamismo” na barra principal e em toda a morfodinâmica estuarina:

Mudanças geomorfológicas: Erosão acelerada das barrancas, formação de deltas de maré, instabilidade da linha de costa e assoreamento e migração da desembocadura antiga.
Impactos ecológicos: Morte de manguezais por mudanças na salinidade e sedimentação, alteração de habitats de peixes, botos-cinza, tartarugas e aves marinhas. Toda a região faz parte da Reserva da Biosfera da UNESCO e de sítios Ramsar, o que torna os impactos ainda mais preocupantes. A propósito Sítios Ramsar são áreas naturais — principalmente zonas úmidas — reconhecidas internacionalmente por sua importância ecológica, especialmente para a conservação da biodiversidade e das aves aquáticas. O termo vem da Convenção de Ramsar, assinada em 1971 na cidade de Ramsar.
Impactos sociais: A antiga vila de Ararapira (São José do Ararapira) foi duramente atingida. Muitas casas foram engolidas pela erosão e pelo avanço do mar, transformando o local em uma cidade abandonada. As comunidades caiçaras tradicionais de Barra do Ararapira (PR) e Ponta do Leste (SP), que vivem da pesca artesanal, enfrentam dificuldades de acesso ao mar e perda de áreas de moradia e sustento.
Uma lição sobre intervenções em ecossistemas frágeis
O Canal do Varadouro é um exemplo clássico de como uma obra realizada com boa intenção (ou por conveniência) pode desequilibrar um sistema estuarino sensível. O que era uma barreira natural está se desfazendo, e os efeitos em cascata continuam em curso.
Atualmente, há discussões sobre possíveis dragagens e alargamento do canal para fins turísticos e náuticos. No entanto, órgãos ambientais como o ICMBio têm alertado para os riscos adicionais: maior fluxo de água, erosão intensificada e ameaça ao Parque Nacional de Superagui.
Reflexão final
A erosão no esporão de Ararapira não é apenas um problema local de geografia. É uma demonstração viva de como ações humanas podem redesenhar o litoral, afetar biodiversidade e deslocar comunidades tradicionais. Acompanhar esses processos é essencial para entender melhor como convivemos com a dinâmica costeira em um planeta em constante mudança.
Você já visitou a região de Cananéia, Superagui ou o Lagamar? Que tal conhecer conosco para conhecer e valorizar nosso litoral?







Passeio perfeito, além das expectativas, o encontro de pessoas especiais em lugares deslumbrantes.